segunda-feira, 24 de setembro de 2012

l'ardor di due begli occhi el mio tormento

...os grãos, a lã de um velocino de ouro no espinheiro, as águias de um bravo deus a me encher a bilha com a água de uma nascente inalcançável... a viagem tenebrosa ao vale da morte e tudo que for preciso para que um vento me leve ao ardor de dois belos olhos que são o meu tormento.



Zéfiro, torna... torna...









- os ventos mais fortes em planetas do sistema solar ocorrem em netuno e saturno -

domingo, 23 de setembro de 2012

Cabeça do Mundo



  
Na cabeça, o mundo,

capota o mundo da cabeça.
 
  A cabeça cobiça o mundo.


O mundo, capítulo mudo,


Me mudo pra dentro da sua cabeça.




  (para S.M.)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Egùn

A única vez que eu vi essa maravilha na minha vida, bem de pertinho, eu tinha 14 anos. Ali eu entendi perfeitamente o que era representação plástica. Ainda me comovo com a lembrança, o rio Cricaré num murmúrio ancestral , o antigo mercado dos escravos no silencio pungente da noite. Tudo muito escuro e eu ali, sozinha, parada diante de uma roupa colocada em uma estátua de madeira. Me sentei diante dela e chorei. Jurava que se mexeria caso eu tocasse em seus panos. Saí de lá com a certeza de que meus olhos tinham visto um segredo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O Lago

















O cheiro da terra sobe, remoída.
Os braços do homem cavam, cansam. Ele sente o cansaço da terra.
Sente o cheiro dos frutos que hão de vir e perfura o humor feminino do pó que devolve em alimento os restos do universo.
Cava.
Cava.
Cava.
Revira as tripas da velha Senhora que traga os cadáveres, sua mais antiga companheira acariciando-lhe os pés quando ele anda sobre o mundo.
Ele, arduamente, vai abrir-lhe um grande buraco e inundá-la com o frescor e o silêncio profundo da água que traz os sentimentos inscritos no seu escoar.
A velha Mulher vai reter-lhe, em frêmitos ancestrais, criando fundo uma morada de mistérios e sussurros...
E, toda vez que ele se sentar ao lado do silêncio das suas águas, a Grande Senhora, fará surgir, sedutoramente,
um espelho onde ele verá refletido os seus próprios segredos que Ela conhece desde quando o trouxe de longe, dobrado, carnado, feito no vinho.


 (Dedicado à Alexandre Guimarães Mendes e à todos os homens que estão construindo um lago, em seu jardim, com suas mãos na terra)

Concerto in D Major


































 É que muitas vezes eu sinto assim, em adágio.
 

Meus olhos lançam um suspiro de água.
 

O peito vibra um sentimento volátil. Os olhos se fecham imaginando violinos.
 

Meus músculos se rendem, absortos, pendidos de um fio 
que dança em algum lugar onde venta.
 

Percorro promessas infundidas na respiração das palavras escritas no poema de alguém que amou e que não existe mais...
 

O universo desabafa esses amores nas cortinas que voam em janelas abertas. Ouço-os, às lufadas, em alvoroços amarelados no tempo.
 

Meu coração encosta na paisagem onde você está e... suavemente, se deita.

(Ouça ao deitar)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Traje de Dó e Açafrão no Tempo

"Há um momento de morte nos momentos em que estamos quietos" (Federico Garcia Lorca)

Na raiz do peito emaranhou-se o canto
Por indolência da voz em desatá-lo no ar.
Coração na boca não dá prazer à língua,
A garganta engole verde o vermelho do amor.

Apatia nos cabelos e os olhos no fundo do mar.
Vontade à paisana, realejo mudo.
Uma sombra de funeral ameaça a libido,
Distante luz neon do meu amar.
Resta o pó.
Resta o ar.
Resta soprar.

domingo, 29 de agosto de 2010

Labirinto



















Tenho a veia costurada a frio e assobia quando passa o vento
Descubro flores no meio do nada.
Invento amores pra curar o tédio.
Anseio beijos longos de anos a fio, com todas as línguas da boca pra fora
Minha alma precipita o corpo
Meu riso é largo e para muitos
Meu coração é mais pra dentro, meu coração é mais pra dentro...