terça-feira, 13 de julho de 2010

One day in your life




Há 18 anos uma criança calou o mundo por cinco minutos durante a ECO92.  O vídeo está na internet e eu me lembrei de como eu acreditava que aquilo tudo poderia fazer história. 
Construiram a linha vermelha por causa da ECO 92, dizem. Não queriam que os governantes passassem pela Av. Brasil. 
Com o tempo, os guardinhas do exército que ficavam deitados por toda a extensão da linha vermelha, negociavam suas metralhadoras com a favela da Maré. Quem morava na Ilha se lembra. A zona sul virou o paraíso, a zona oeste um inferno a la Dante. Agora estão ladeando a linha vermelha com tapumes e realizando as UPPs nas favelas que rodeam a zona sul. A Copa de 2014 vem aí. Dizem também que as Upps são encomenda de um grande empresário que anda investindo muito no RJ, falam no Eike Batista, circundam lendas aqui e ali.

E os bichos?  

Tenho um aluno que acha que zebra é só um termo de futebol. Tive que mostrar uma foto num livro para que ele não achasse que eu estava lhe pregando uma peça.  


E as crianças continuam crescendo analfabetas por causa da aprovação automática nas escolas públicas e as crianças continuam morrendo por tiros ao acaso, ou dengue ou fome...ou...ou...
E isso vai mexendo com a gente sem a gente saber, junto com os tempos violentos por todo lado. Esse dias chorei com a publicação de um amigo com a frase "Ternura para os nossos tempos" junto a um vídeo do Michael, tão jovem, cantando "One day in your life", simplesmente porque a palavra ternura foi pescada assim no meio da barbárie das últimas notícias, onde uma mulher some no mapa comida por cachorros e eu ainda ouço do homem da farmácia que "Você sabe como mulher pode perturbar quando quer, né?" . Aquilo me deixou mal, um mal de triste porque ainda se acha que a mulher é uma coisa e uma coisa que merece lição. A mulher não tem o direito nem de ser canalha que até as outras mulheres legitimam o castigo dizendo que ela era uma puta...

 E a voz doce e levemente triste do Michael pequenininho já embalou umas das minhas saídas da favela onde trabalho, às 23h, no escuro da noite, no meu fone de ouvido, enquanto eu ia passando por aquelas crianças de 10, 12 anos que estão deitadas amontoadas na saída da favela, chapadas de crack, sujas, muito sujas como eu nunca vi e tinha uma grávida, fora de si, nem sei se só dormindo, chupando o dedo, sem calcinha, ainda sem pêlos pubianos, com o vestidinho azul claro levantado e eu pensei em cobrí-la e eu pensei tanta coisa... e a barriga era quase do tamanho dela e eu chorei muito e as vezes essas dores me tomam forte e me causam muita, muita tristeza mesmo... Até anos depois, em lugares inesperados, por associação de pensamento.

Muitas vezes para não parecer um pessoa desequilibrada entre amigos risonhos, modernos, eu engulo o choro mas me falta muito o sangue frio...
Vejo as crianças crescendo sem chance de desenvolverem uma capacidade equilibrada de afeto. Tudo é injusto e violento. A estética é de horror. Os sentimentos estão desequilibrados e prevejo tempos tão bárbaros que eu tenho medo de esquecer como se ama. De esquecer palavras como ternura, afago, conforto, meiguice, doçura, amor ou zebra.

3 comentários:

Yan Chaparro disse...

...são poucos os momentos em que o ar sai mais nítido para alguma beleza como o gesto de ternura. Tenho medo do hoje, dos risos inteligentes nas esquinas, da ironia que se perde quando o sangue é a ultima imagem e do gosto amargo da desesperança do dia as 19:00 horas.

Sylvio de Alencar. disse...

Além de sua impressão de horror e desconsolo, que divido com você, me fica também sua pessoa; e seu sentimento, na retina do meu sentimento.

Sylvio de Alencar. disse...

Ahhh, às mulheres não se lhes dá o direito ser. No geral o homem não percebe isso. Ainda não muito. O egoísmo também se ceva da liberdade alheia.