terça-feira, 5 de agosto de 2008

Provocações e Delícias do Titio Polonês


"Existe algo de incomparavelmente íntimo e produtivo no trabalho com um ator que confia em mim. Ele deve ser atencioso, seguro e livre, pois nosso trabalho consiste em explorar ao máximo suas possibilidades. Seu desenvolvimento é atingido pela observação, pela perplexidade e pelo desejo de ajudar; o meu desenvolvimento se reflete nele, ou melhor, está nele - e nosso desenvolvimento comum transforma-se em revelação. Não se trata de instruir um aluno, mas de se abrir completamente para outra pessoa, na qual é possível o fenômeno de 'nascimento duplo e partilhado'. O ator renasce - não somente como ator mas como homem - e, com ele, renasço eu. É uma maneira estranha de se dizer, mas o que se verifica, realmente, é a total aceitação de um ser humano por outro."

(Jerzy Grotowski - Em busca de um teatro pobre - trad. de Aldomar Conrado)

8 comentários:

andre disse...

Evoé, Baco!

Joice,

Já viveu isso em algum processo?
Será possível isso, fora do teatro de grupo?
Será possível isso dentro do teatro de grupo? (Rindo muito, pensando em mim mesmo)
Será possível isso?
Será?...


E mais uma coisa, Peterson Dias e suas 'Carapuças'. Eu gostei demais. Você o conhece? Gostaria de entrar em contato com ele para os painéis. Bem acho que foi por isso que você mandou o link, não é?

Obrigado.
Bom dia.
Beijo.

Joice Marino disse...

Drézito,

Eu não sei se é possível isso com o ser humano! (Gargalha italiana de envergonhar marido)

Brincadeira. Olha, é claro que é. E é muito mais frequente do que imaginamos. Na verdade, isso sempre acontece em um processo honesto. As camadas é que são mais ou menos profundas, dependendo do processo, das pessoas e até mesmo do tempo. Pensa bem. Acha que a Ana Kfouri e o Toninho não se aceitaram como seres humanos no processo?
Claro, Grotowsky foi muito mais fundo com seu Teatro de Laboratório e não só ele, muitos outros. O Odin por exemplo e Eugênio Barba, para citar alguém vivo.
Temos que pensar os processos em camadas. Mas entendo quando fala 'se isso é possível'. Mas dê um desconto no nível das coisas, ok?

É que angustia mesmo porque enxergamos onde isso pode chegar, não é? E para que isso se dê (o 'ato total' que Grotówsky perseguia) é preciso uma vida toda nisso. Uma vida LONGA, toda nisso.

Começou a sentir que estamos atrasados, né? É estamos Dré, uma vida inteira...

Mas não há saída com o tempo. Mesmo atrasada, prefiro estar no caminho do que fora dele.

Um grande beijo.

andre disse...

Você tocou no ponto.
O que veio na minha cabeça foi: "xi, já era!"
Quando fala de camadas, está se referindo às camadas do processo pessoal de cada um, certo?
Claro que sim. Pergunta ingênua. (Rubor)

Fico aqui pensando no clima dos ensaios. A gente se dispersa demais. Não tanto, no meu grupo. Mas quando acontece de estar em uma montagem dessas de elenco selecionado, é disperso demais.
Como podemos atingir camadas tão particulares em um clima de leviandade? Eu mesmo acabo entrando neste clima. Não deveria ser assim.

O jeito é trabalhar. A gente anda, anda e acaba caindo mo mesmo ponto: trabalhar!

Ando cansado.
Apesar de fantástico, não sou mais um jovem ator. (Tentando esconder as rugas para receber elogios da platéia)
Brincadeira (Ah,preciso dizer?).

Ando cansado no espírito. E talvez não seja culpa dos outros.

Vamos falando, está fazendo efeito.
Comecei a deprimir. (Gargalhada histérica)

=O)

'Jocas!

Joice Marino disse...

Ah, André

Não se deprima. Ou, se deprima se isso for o começo de uma comoção transformadora!

O importante é investigar o que nos faz dispersar.
Vaidade? Carência?
Bem, acho que essas palavras se completam, não é mesmo?

Me aponte um ser humano vaidoso, lá na outra ponta vamos encontrar algum tipo de carência. É quase receita de bolo. Não tem erro.

Nosso meio é bem difícil neste sentido.
E muitas vezes confundimos seriedade com falta de prazer. (Erro!Erro!Erro!)

Também sou beeeeem dispersa, não se iluda.

O espírito se cansa porque está vivo, o pior é viver anestesiado.

Bem vindo ao mundo da reflexão com falta de coragem para agir! (Sim, estou sendo cruel. Mas não é com você. É, antes, comigo.)

E...

...Não seja tão dramático, sua gargalhada histérica foi falsa, eu ouvi daqui! (Atores...tsc..tsc..)

E pára de copiar minhas carinhas!

:O)

Meu beijo, muito feliz em conhecer um ator de pensamento, além do meu amigo Fabiano de Freitas.

Continue, sempre vai dar em um lugar melhor!

betina moraes disse...

Algumas considerações cercadas da ingenuidade de quem não exerce a profissão de ator, mas que acha o teatro a maior força transformadora da coletividade. Permite?

Eu não sei exatamente onde as coisas se dão quando se fala das “camadas”, minha ignorância é imensa, mas minha irmã vai me dar uma luz (não vai?), cedo ou tarde (cedo, tarde não existe!). Só estive em palcos mambembes, com gente ansiosa por fazer algo, por ser algo. Por empirismo, eu intuo o que sejam as “camadas”. O processo, acho que sei do que se trata.

Na vivência da atividade teatral, para poder me salvar de possíveis crimes cometidos contra a entidade Teatro, na falta de direção e de uma formação adequada, fui desenvolvendo a “mania” de ter muita atenção ao redor. Atenção ao texto, roupas, gestos, marcas... Com o tempo fui sentido necessidade de aplicar a mesma atenção ao Tempo, fases da lua, a coceira no braço, ao riso da platéia, ao teto, ao macro, ao micro. E depois de viver bastante o exercício, aprendi a prestar muita atenção no outro.

O ator é uma esponja, querendo ou não. É melhor estar atento ao meio que o cerca (e ao meio que ele cria para ser cercado) e ir intensificando as relações com ele mesmo e como os outros. Por convívio e observação, assimilam-se milhões de informações que salvam do “limbo” o gestual em um palco, por exemplo.

O ator precisa conhecer profundamente suas capacidades e quais referências foram armazenadas na criação de sua “persona”, da individualidade que ele é. Investigação da história da própria família inclusive, investigação dos padrões que formaram os acertos e erros no núcleo de onde veio o indivíduo ator. Uma pesquisa intensa, cansativa, desgastante, mas que esclarece os vícios, as prisões, as correntes, os padrões castradores da própria vida da pessoa que é o ator. Não acho que seja possível uma pessoa que não esteja comprometida com o exercício teatral se dar ao mergulho em si mesmo. Os atores estão, antes de tudo, querendo “achar algo” que ainda não sabem a respeito da vida, de si, dos mistérios que cercam a imensidão, dando-se, expondo-se, exaurindo-se, estando nu, mesmo que sem a total consciência dos atos que cercam os mecanismos da formação do ator.

O diretor é o artesão da argila que é o ator. Molda a “intenção” do que quer dizer para o mundo no corpo elástico e maleável do ator. É preciso que a “argila” seja receptiva, tenha qualidade, esteja peneirada das “impurezas”, firme ao toque e que não se “desmanche” no meio do processo de moldagem...


Ficar nu, estar nu para si mesmo, é etapa mais séria da atividade do ator. É o momento derradeiro, onde se decide quem vence e “quem se perde de si e se mata”! Alguns Egos não suportam a verdade espelhada no fundo do rio das descobertas. Eu mesma acho ser difícil sobreviver a uma análise profunda do meu espírito e da minha matéria. Aqui, como você bem sabe Joice, dou viva aos atores, diretores e pensadores orientais.

O teatro deveria fazer parte da educação emocional dos indivíduos! Mas não faz e isto é uma tragédia social, antes de tudo.

Nem na filosofia, nem na psiquiatria, nem no amor, ou qualquer lugar fora dos olhos das ninfas e faunos magnéticos dos holofotes e dos deuses escondidos nas palmas, pode-se encontrar tal impacto para uma vida quanto no exercício do Ofício do ator. Nada exige tanta sinceridade quanto o palco, nada!

No teatro, atores com atores, diretores com atores, músicos com coreógrafos, é possível identificar imediatamente a entrega, a verdade, o acontecimento teatral puro! Eu já vivi algumas experiências sensoriais, ali, sentada na platéia. E é sempre a mesma sensação física, há um choque seguido de um palpitar desconcertante, uma energia que desperta a consciência de forma diferente, que transborda na lágrima desavergonhada, esquecida de estar em público. Como quando Grace Passô, no espetáculo “Amores surdos” foi a “mãe” que coloca ordem na casa gritando de uma forma quase sobrenatural com seus filhos. Eu imediatamente me comportei como se fosse também um dos filhos e chorei como eles e obedeci...

Então, acho que os atores devem ser atores antes de tudo e se o forem com a honestidade necessária para dar o corpo ao sacrifício, poderão ser o que quiserem depois, inclusive pensadores, educadores, filósofos, humanos...

Um beijo joice, o blog, os diálogos, sei o quanto você está feliz por provocar tais questões e encontrar eco na inteligência-vivência de outro ator. Evoé!

andre disse...

Joice, nunca peça para um ator não ser dramático. Isso é a morte para ele.(Sem rubricas, para ficar mais dramático)(Rindo desta última rubrica)

Se você imita minhas rubricas, posso imitar suas irresistíveis "carinhas". (Duplo sentido declarado)

Você tem razão, a vaidade tem raiz na carência. Nunca pensei nisso. (Com raiva vaidosa de não ter pensado nisso antes, risos)

Se você tem alegria em poder trocar com alguém de pensamento no nosso meio (raridade!), imagina eu? (Você sabe do que estou falando, risos)

Betina Moraes,

O que escreveu me tocou muito porque percebo que perdemos, no correr do ofício, esta paixão que colocou no fazer do ator. É preciso perder um pouco disso (justificando-se, oh!) para poder não cair na vaidade que tem raiz na carência causada pela vontade de ser aceito ou pecebido. Que armadilha! (Me apropriando de palavras da Joice, em outra ocasião)

Sim, os orientais também são meu modelo de sabedoria. Eles estão
muito mais adiantados nisso e, por isso, os estudo, sem cansaço.

Tomando a liberdade de responder sobre "as camadas", acho que se trata de lapidação. Um dia você consegue determinada coisa em um nível, no outro em um nível mais profundo e assim por diante.


Joice, o contato de Peterson Dias, menina! Ainda espero que responda meu último email.

Um beijo para Betina e outro para Joice,

do amigo André.

Joice Marino disse...

Mas que trelelê interessante, sô!



Betina, querida irmã e Drézito,


Como diria Jack, o estripador, vamos por partes:



As camadas, são simplesmente camadas mesmo. E não seria "onde" e sim, níveis. Hoje consigo um tipo de concentração, amanhã um mais profundo etc...

Quando lemos Grotówsky, ficamos com a sensação de que é impossível conseguir esta profundidade.

O erro é pensar que precisamos chegar em algum lugar. Este "lugar" não existe, as possibilidades de aprofundamento não tem fim, quem tem fim é o ator. Até morrermos teremos um caminho e, se continuarmos no trabalho investigativo do ato criativo do ator, serão camadas transpostas em direção a algo que se move junto conosco. Quando chegamos em outro lugar do processo, descobrimos outras coisas que, do lugar de antes, ainda não tínhamos suposto a existência.


A idéia da esponja para representar o ator é interessante. Se fala muito em "antena" também. Ele, mais que qualquer outro artista, precisa estar ligado a tudo que o cerca, isso é perfeito.

O autoconhecimento é uma chave importante no trabalho do ator. E, sobre isso, Jacques Copeau fala melhor que qualquer outro:

"Para o ator,doar-se é tudo.E para doar-se é preciso antes possuir-se."

Quanto ao que escreveu sobre a relação de diretor e ator, preciso fazer uma observação. Entendo o que quer dizer e sei da disponibilidade que você se coloca quando realiza um espetáculo, como atriz. É bonito de ver.
Mas a metáfora da argila pode gerar uma confusão muito comum no nosso meio. O diretor não molda e nunca pode moldar o ator. Acontece muito, mas não deveria ser assim. Ele simplesmente seleciona o que o ator o oferece. O ator nunca pode ser passivo. Ele tem que criar, oferecer farto material de ações (poéticas) e o diretor seleciona o que mais serve à cena. Um não pode interferir no trabalho do outro.

"O ator é o poeta da cena", alguém falou.

"Estar nu para si mesmo", isso é perfeito, Betina!

"Nada exige tanta sinceridade quanto o palco", outra pérola.

Quando fala da sua experiência como espectadora fico aqui sonhando um público compremetido com a experiência ao assistir a um espetáculo. Grotówsky diz que teatro é encontro, que teatro é aquilo que acontece entre o ator e o público.

Conheci poucas pessoas que se comprometem ao ver uma peça ou um filme, poucas. E isso me faz falta, não só como atriz, mas como ser humano.


Dré, respondi seu e-mail e vou colocar umas coisas aqui no blog para você.

Meu beijo feliz em Betina e no meu amigo Dré.

C|:O)8-

andre disse...

Joicinha,


Obrigado por mandar Barbara Kruger, é dela que preciso.
Já havia ouvido falar dela, mas não atinei.

"O erro é pensar que precisamos chegar em algum lugar", está aí uma coisa importante para o teatro e para própria vida. Me lembrou a música da seta no alvo. Como é mesmo, hein?

Não há muito o que falar, seria redundante.

Espero a próxima provocação do titio.

Beijo para você e Betina.

Opa!Perdão!

Evoé!Evoé!

P-)

(Tá vendo? Inventei a minha, tipo pirata - risos)